Artigo - O pop como palco para uma mistura de referências: O clipe 911 de Lady Gaga (2020) e o filme armênio "A Cor da Romã" (1969)
Por Fernanda Baron
Depois de passar por uma crise em sua saúde mental, a cantora norte-americana Lady Gaga lança em maio de 2020 (em plena pandemia) o seu mais novo álbum Chromatica, nele além de abordar a sua depressão crônica ela também explora assuntos sobre a mente humana: sonhos, imaginação e inconsciente. Em setembro do mesmo ano, Lady Gaga transforma a música 911 (presente no álbum) em um clipe cheio de símbolos e referências cinematográficas. Ela faz claras alusões aos filmes A cor do Romã (1969) do diretor Sergei Paradjanov e 8 ½ (1963) do diretor Frederico Fellini.
Com a facilidade da internet, os fãs rapidamente levantaram hipóteses sobre os símbolos que existem no videoclipe mas poucos deram atenção para as referências cinematográficas. Existe uma relação entre os dois filmes de forma isolada e também entre as três obras, todas tratam da complexidade da mente humana e abordam direta e indiretamente o inconsciente.
Stefani Joanne Angelina Germanotta, mais conhecida como “Lady Gaga”, é uma cantora, instrumentista, produtora musical e compositora norte-americana, nascida em 1986, hoje com 34 anos. Lady Gaga é a primeira artista da era digital a atingir a marca de 5 milhões de vendas logo no início de sua carreira (2008), com seus dois primeiros sucessos: Poker Face e Just Dance. No MTV Video Music Awards (2020), Gaga recebeu 5 prêmios no total, incluindo o prêmio de Melhor Artista do Ano e a melhor cinematografia. Todos esses prêmios referentes ao álbum lançado em maio de 2020, contendo 16 músicas, entre elas 911 cujo clipe foi lançado em setembro. O clipe em questão despertou a curiosidade dos fãs, poucos minutos após o lançamento na plataforma do Youtube, já era possível encontrar vídeos que procuravam desvendar o simbolismo por trás da obra.
Em síntese, 911 narra de uma forma não linear um acidente (o pós acidente, instantes entre a vida e a morte), de início Gaga se encontra em um cenário fantasioso, cercada de figuras deslumbrantes que fazem clara alusão estética ao filme A cor da Romã (1969) de Paradjanov, no final do clipe descobrimos que tudo não se passava de um “sonho” que a protagonista teve enquanto estava inconsciente devido ao acidente que sofrera, sua mente estava captando a realidade e transformando-a em uma ficção baseada em fatos reais. Logo na primeira vez que assistimos ao clipe, já conseguimos identificar os correspondentes do sonho na vida real. Muito além do simbolismo e de uma narrativa interessante instiga e capta a atenção do espectador, Lady Gaga aborda duas questões: saúde mental e a forma como a realidade e os sonhos se conectam. Como explicado por ela mesma nas suas redes sociais “Este pequeno filme é muito pessoal para mim, minha experiência com saúde mental e a forma como a realidade e os sonhos se conectam para formar heróis dentro de nós e à nossa volta.” E no final ela completou “Eu estou acordada agora, eu posso ver vocês, sentir vocês, muito obrigada por acreditar em mim quando eu estava confusa [...] uma história real que agora faz parte do passado e não do presente. É a poesia da dor”.
E para abordar saúde mental e
sonhos x realidade, Lady Gaga relaciona e faz referências à duas obras
cinematográficas muito distintas: A cor da Romã de uma forma explícita na
estética do clipe e 8 ½, o último aparenta só ter participação no clipe em uma
pequena cena de menos de 10s, mas se buscarmos relações entre essas três obras
percebemos a influência que o filme (e a vida) de Fellini têm na construção da
narrativa e do conceito de 911.
A Cor da Romã (1969) S.
Paradjanov
A cor da Romã (1969) é um filme
de arte armênio dirigido (e escrito) pelo cineasta Sergei Paradjanov, ele conta
a vida do poeta “Sayat Nova”, mas não se propõe em ser uma biografia
tradicional, sua trajetória é apresentada como se fosse recortada pelo próprio
poeta, explorando como sua mente funcionava. A estética do filme é uma arte
visual nada literal, Paradjanov além de ser um cineasta também era artista
plástico. Um aspecto interessante sobre essa obra é que devido à influência
árabe, a narrativa não se desenvolve na perspectiva tridimensional do tempo,
existem saltos em vários momentos do filme e a realidade se mistura com a
imaginação.
Nas duas obras o espectador é
convidado a procurar cenas dentro das cenas, o ambiente é propositalmente
cênico. Tanto a paleta de cores, como a luz, são muito semelhantes na obra de
Paradjanov e 911, o predomínio da luz suave passa a atmosfera típica de um
sonho, existem poucas sombras até mesmo em cenas mais escuras em ambas
produções. Em 911,Lady Gaga assume várias versões dela mesma, algo que acontece
na trajetória de vida do poeta Sayat Nova em A cor da Romã. É interessante como
os diretores usam de uma arte tão naturalista que é a fotografia para mostrar
algo não fotografável: os sonhos, a imaginação e o inconsciente.
Conclusão: As três obras analisadas mesmo sendo bem distintas em seus estilos propostas, têm pontos em comum, elas procuram explorar a mente de seus respectivos protagonistas e por se tratar da psique humana não apresentam um roteiro necessariamente linear (Um aspecto comum nas narrativas orientais). Esteticamente, A cor da Romã está muito próxima de 911, a composição das cenas, as cores e todo o universo protagonizado por Lady Gaga é inspirado na obra de Sergei Paradjanov.
Conceitualmente, 8 ½ explica de forma
direta a situação de estresse que o artista passa devido à pressão da
indústria, o protagonista Guido (e consequentemente o diretor Fellini) passaram
por uma crise existencial muito parecida com a de Lady Gaga. No final das três
obras os protagonistas são libertos, Sayat Nova encontra paz no descanso da
morte, Guido decide contar a verdade
todos e desiste do projeto e Lady Gaga decidi resistir, lutar contra a
sua depressão e contar ao seus fãs aquilo que ela passou.

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